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O Mito da Meritocracia

A dor do mito da meritocracia afundou em mim como uma faca afiada quando eu a vi. Estava sentada em um restaurante italiano em um bairro nobre de São Paulo quando ela passou por mim. Foi um tapa na cara bem dado, uma porrada muito merecida na minha ignorância de cada dia. Ela passou por mim diretamente e não reparou naquele lugar. Iluminado e vazio para um restaurante tradicional no sábado à noite. Ela tinha a pele muito clara. Suas bochechas estavam vermelhas e concentradas no percurso. Os olhos escuros e bem marcados estavam fixos no caminho à frente. Os cabelos muito negros, lisos e longos estavam presos em um rabo de cavalo alto, que encaixavam no boné rosa que protegia seu rosto. Ela forçava, com foco, as rodas de sua cadeira por aquela calçada esburacada. A dor do mito da meritocracia me veio quando eu reparei no que a mulher trazia nas costas da cadeira de rodas que, com muito esforço nos braços, ela arrastava. A dor do mito da meritocracia se afundou no meu estô...
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A vida é um sopro

  A vida é um sopro. Quando chega na gente, já foi É uma brisa leve Um contato sutil É uma construção contínua Entre tudo que há fora E tudo que está dentro Esse turbilhão de meios e ambientes   A vida é um sopro Quando se assopra, passou É uma estrutura frágil Uma conexão sutil É um contato que fica É só esbarrar que se vai   A vida é um sopro Sopra o vento e deixa a brisa Levar para o sol essa vida Essa vida constante Essa vida intensa Intensamente vívida Intensamente sentida Intensamente sonhada   Leve essa brisa Leve essa brisa para à aquecer à luz solar à luz do sol à luz natural À luz encantadoramente luz Que será luz hoje e sempre Para emanar, iluminar e aquecer Essas vidas Que ficam Que vão Que sentem Que se intensificam   Essas vidas Intensamente Vívidas A vida é um sopro

O Menino Desenhista

Eu estava voltando para casa depois de mais um dia exausto de trabalho. Sentei no banco do ônibus que ficava de costas. Era bom dar um “adeus” sutil às obrigações satisfatoriamente cumpridas. Minha bolsa descansava sobre meu colo, enquanto eu admirava a paisagem lá fora. O trajeto do porto do centro do rio, com suas histórias encobertas e despedidas dolorosas, entretinham meu caminho até a ponte Rio-Niterói. A minha frente, um menino. Devia ter seus 15, 16 anos e ainda vestia o uniforme do colégio. Concentrava-se firmemente nos traços que o lápis fazia sobre o caderno apoiado na mochila. Focado, não errava um risco, dispensava o uso da borracha. Os cabelos desarrumados lhe caíam sobre a testa e ele mantinha os olhos precisos em seu desenho. Atentei-me então para o papel que o menino ilustrava. Desenhava com perfeição um personagem de Star Wars, que eu sabia que pertencia ao filme mas por minha ignorância, sequer imaginava qual seria o seu nome. O traçado era perfeito, nunca havia v...

É tarde.

  É tarde. O sino da igreja já tocou há muito tempo as badaladas da meia noite. A escuridão invade o quarto, permeada pelas luzes da iluminação pública na rua silenciosa. É tarde e eu sigo tentando. Tentando comer alguma coisa sem vomitar tudo. Tentando beber um chá pra acalmar a mente que não pára. Tentando seguir. É tarde e essas estantes cheias de livros e teses e doutrinas me causam frustração. Me contaminam com a sensação contínua de que não, não fui capaz. Sim, falhei. Mais uma vez. Uma falha miseravelmente reiterada que se acumula na minha coleção. É tarde. O gato sobe no beiral da janela. É novamente a rede de proteção que impede que ele caia. Um tremendo investimento essa rede. Uma dor de cabeça a menos pra competir com as demais dores que eu coleciono hoje. É tarde e o silêncio da vizinhança me permite ouvir a torneira da cozinha gotejando sobre o alumínio da pia. É tarde. E sobre a mesa, a pílula continua ali, a me olhar. Me encara como uma covarde. A covarde que sou e...

Adoção

Meu namorado e eu resolvemos adotar um cachorro. Ficaremos pelos próximos meses em casa e, provavelmente, por muito mais tempo depois disso e sentimos que falta algo no lar. Ah, meu namorado e eu resolvemos morar juntos. Esse é um detalhe essencial que deveria ter vindo antes de eu falar da adoção do cachorro, mas sou ansiosa e já quis começar pelo principal. Não que morar junto seja algo trivial. Veja, já são 120 dias de quarentena, nós dois juntos, dividindo a louça, decidindo o cardápio da semana, separando a roupa para lavar. Meu namorado até já começou a adotar cereais (de verdade) em suas refeições e incluiu um dia na semana sem carne. Morar junto é uma experiência peculiar, porque mesmo após 10 anos de relacionamento, somente a convivência diária, a divisão parcial do cobertor, a separação do armário e o café passado por um ou por outro, é que deixam claro, verdadeiramente, algumas coisas. É um contínuo processo de descobrimento. Até sobre si. Tive grandes estalos como...