A dor do mito da meritocracia afundou em mim como uma faca afiada quando eu a vi.
Estava sentada em um restaurante italiano em um bairro nobre de São
Paulo quando ela passou por mim.
Foi um tapa na cara bem dado, uma porrada muito merecida na minha
ignorância de cada dia.
Ela passou por mim diretamente e não reparou naquele lugar. Iluminado e
vazio para um restaurante tradicional no sábado à noite.
Ela tinha a pele muito clara. Suas bochechas estavam vermelhas e
concentradas no percurso. Os olhos escuros e bem marcados estavam fixos no
caminho à frente.
Os cabelos muito negros, lisos e longos estavam presos em um rabo de
cavalo alto, que encaixavam no boné rosa que protegia seu rosto.
Ela forçava, com foco, as rodas de sua cadeira por aquela calçada
esburacada.
A dor do mito da meritocracia me veio quando eu reparei no que a mulher
trazia nas costas da cadeira de rodas que, com muito esforço nos braços, ela
arrastava.
A dor do mito da meritocracia se afundou no meu estômago como um soco
quando eu entendi o que ela levava, quando eu compreendi que era um enorme saco
de latinhas. Um saco completamente cheio de alumínio.
A dor do mito da meritocracia me veio quando eu, daquele restaurante
tradicional em um bairro nobre de São Paulo, percebi que todo o esforço que
aquela mulher fazia para arrastar aquele enorme saco de latinhas com a sua
cadeira de rodas não pagaria um prato no restaurante que eu estava jantando.
A dor do mito da meritocracia era perceber que não é uma questão de
mérito, de força, de dedicação.
A dor do mito da meritocracia era simplesmente um mito, como muitos
mitos e muitas fantasias.
Não faltava esforço, energia ou concentração àquela mulher. Não faltava
garra ou disciplina.
Ela se esforçava para empurrar a cadeira de rodas e obter a própria
renda, o próprio sustento. Mas isso não era tudo.
Não há mérito que supra uma desigualdade intransponível, uma barreira
física, um desequilíbrio inato.
A dor do mito da meritocracia era ser somente um mito.
Não havia mérito na desigualdade.
Não havia mérito nas barreiras.
Não havia mérito no desequilíbrio.
A dor do mito da meritocracia era a diferença.
A diferença do lugar que eu e aquela mulher ocupávamos.
A dor era a desigualdade, as barreiras e o desequilíbrio entre eu e
aquela mulher.
A dor era a meritocracia como mito.
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