Eu estava voltando para casa depois de mais um dia exausto de trabalho. Sentei no banco do ônibus que ficava de costas. Era bom dar um “adeus” sutil às obrigações satisfatoriamente cumpridas. Minha bolsa descansava sobre meu colo, enquanto eu admirava a paisagem lá fora. O trajeto do porto do centro do rio, com suas histórias encobertas e despedidas dolorosas, entretinham meu caminho até a ponte Rio-Niterói.
A minha frente, um menino. Devia ter
seus 15, 16 anos e ainda vestia o uniforme do colégio. Concentrava-se
firmemente nos traços que o lápis fazia sobre o caderno apoiado na mochila.
Focado, não errava um risco, dispensava o uso da borracha. Os cabelos
desarrumados lhe caíam sobre a testa e ele mantinha os olhos precisos em seu desenho.
Atentei-me então para o papel que o
menino ilustrava. Desenhava com perfeição um personagem de Star Wars, que eu
sabia que pertencia ao filme mas por minha ignorância, sequer imaginava qual
seria o seu nome. O traçado era perfeito, nunca havia visto alguém com tanto
talento demonstrar essa arte livremente a minha frente, ainda mais em um ônibus
em movimento nas péssimas ruas do centro da cidade.
O menino continuava sua obra e
enquanto isso, eu observava a paisagem lá fora dando breves pausas para admirar
o progresso do seu trabalho. Era incrível. Digno de um artista plástico, em
pleno ônibus cheio, em movimento, no centro antigo da cidade.
O ônibus parou em seu último ponto
antes de seguir para a ponte e dentre as inúmeras pessoas que adentraram o
ônibus aproveitando a parada antes da travessia da Baía de Guanabara, ela
entrou e sentou-se ao meu lado.
O menino olhou de relance para as
pessoas que tinham entrado no ônibus quando se deparou com a imagem dela. Eu
não pude dizer exatamente o que aquela menina tinha de encantador ou belo. Mas
eu sabia que aquilo que ela tinha de belo e encantador havia fascinado o menino
profundamente. Ele desconcentrou-se de seu desenho e ficou a olhando, admirando
a beleza daquela menina.
Eu não conhecia paixão à primeira
vez, não havia tido amor à primeira vista nem nada do tipo. Mas sentia as
energias que eram exaladas daquele menino. Quase palpáveis.
Enquanto isso, a menina abria sua
mochila e retirava de lá um livro. Apoiou-o em seu colo e leu para ocupar o
tempo do trajeto. Seus fones de ouvidos impedindo que qualquer barulho externo
perturbasse sua leitura e entretendo com boa música. Continuou assim,
desfrutando do resto da viagem até em casa.
Nesse momento, o menino, tomado por
aquela energia, virou a página do seu caderno de desenho, deixando uma página
em branco aberta para dar início a uma nova obra. Pegou seu lápis com os
longos, mas firmes, dedos, deu mais um intenso olhar em direção a menina e
começou a desenhá-la.
Não podia ver com plenitude a folha
de papel em que ele produzia, mas pelos movimentos de suas mãos, pude
desconfiar que ele moldava o rosto fino e marcante da menina sentada ao meu
lado. Os pequenos giros com os dedos identificavam os cachos que caiam soltos
pela nuca da menina. Parou algumas vezes para analisar a modelo de seu desenho,
para observar como iria detalhar seu rosto, seu nariz, seus lábios carnudos e
as sobrancelhas revoltas da adolescente.
E ela continuava ali, distraída em
sua leitura. Às vezes apoiava a cabeça sobre a mão, para descansar um pouco,
outras vezes deitava-se sobre seu ombro. Mas continuava ali, firme na leitura
de sua obra no trajeto até em casa.
E o menino continuava a desenhar
firmemente sua musa. Olhou rapidamente para fora, a fim de identificar em que
ponto da ponte estaria. Quando notou que já haviam passado o vão central e não
havia trânsito que pudesse retardar a chegada, começou a desenhar ainda mais
rápido. Os traços leves de sua mão davam a impressão de ter chegado aos
retoques, as sombras, as características finais do rosto da menina.
Havíamos chegado em Niterói e agora
ele passava um pouco mais de tempo admirando os olhos verdes e os longos cílios
do objeto de seu encanto ao meu lado para deixar sua obra mais completa.
Foi quando o botão de “parada” soou
alto e a menina guardou seu livro na mochila preparando-se para levantar que os
olhos do menino se arregalaram pela primeira vez. A testa do desenhista
apaixonado tensionou-se e era possível ver a dúvida de descer ou continuar o
trajeto até o destino final estampada na sua face.
O ônibus parou. A menina, com sua
mochila verde clara nas costas e os cabelos bagunçados pelo vento que adentrava
pela porta aberta, seguiu tranquilamente a fila de pessoas que desceria naquele
ponto.
Não pude conter minha torcida
interior para que ele pegasse suas coisas e fosse atrás de sua musa
inspiradora, que se declarasse longamente, que lhe entregasse sua obra e que
dali se desenrolasse um grande amor. Não pude deixar de dar vivacidade aos
contos de princesas, às histórias encantadas e aos finais felizes, afinal, o
mundo está tão cheio de ódio e violência, era deliciosa a sensação de assistir
aquela doce cena inusitada.
Então ele se decidiu. Lançou o lápis
dentro da mochila e quando as portas estavam prestes a se fechar para continuar
o trajeto, ele jogou a mochila nas costas, segurou o caderno de desenhos aberto
na mão e desceu do ônibus rapidamente.
O ônibus fechou as portas e seguiu.
Ao longe, eu pude observar, da janela do ônibus, a timidez do menino ao abordar
a menina. Seu jeito sem graça de lhe entregar o desenho que dela fizera com
tanta dedicação e desenvoltura no caminho até ali. Quem sabe esse caminho não
guiasse a uma nova estrada?
Gostaria de ter descido junto para
descobrir o desfecho dessa história, de sorrir junto com o encanto do menino
pela menina, de ficar apaixonada pelo jovem casal. Mas já que, assim não fiz,
deixo à minha imaginação o final feliz da cena e a expectativa de ver outros
encontros de amores pelo caminho, outras histórias apaixonantes e encantadoras,
outros amantes desconhecidos...
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