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É tarde.

 

É tarde. O sino da igreja já tocou há muito tempo as badaladas da meia noite. A escuridão invade o quarto, permeada pelas luzes da iluminação pública na rua silenciosa. É tarde e eu sigo tentando. Tentando comer alguma coisa sem vomitar tudo. Tentando beber um chá pra acalmar a mente que não pára. Tentando seguir. É tarde e essas estantes cheias de livros e teses e doutrinas me causam frustração. Me contaminam com a sensação contínua de que não, não fui capaz. Sim, falhei. Mais uma vez. Uma falha miseravelmente reiterada que se acumula na minha coleção.

É tarde. O gato sobe no beiral da janela. É novamente a rede de proteção que impede que ele caia. Um tremendo investimento essa rede. Uma dor de cabeça a menos pra competir com as demais dores que eu coleciono hoje. É tarde e o silêncio da vizinhança me permite ouvir a torneira da cozinha gotejando sobre o alumínio da pia. É tarde. E sobre a mesa, a pílula continua ali, a me olhar. Me encara como uma covarde. A covarde que sou e a que sempre fui.

É tarde. E a hora passou. Como a decisão que eu não tomei, mas me tomou. Como todas as vezes que eu não decidia entre o que pedir e pediam por mim. Como todas as vezes que eu não sabia o que vestir e me vestiam. É tarde. Como sempre. E eu estou de novo aqui. Sem decidir. Decidiram por mim. Como foi naquela única oportunidade em que não poderia ser tarde. Em que tarde seria jamais. Mas foi. Tarde.

As luzes da iluminação pública refletem sobre o meu rosto. Iluminam minhas olheiras profundas, minha testa enrugada, minha falta de noção de tempo. É tarde. E a pílula continua sobre a mesa como quem me diz. É tarde. E já era tarde quando eu tomei uma covarde decisão. E já era tarde quando eu abandonei a decisão. É tarde. E já era tarde quando o moço deixou a encomenda na minha caixinha de correio. Eu a peguei e subi apressada as escadas. Pulando de dois em dois degraus, como se estivesse fugindo. Como a covarde que sou. Como a covarde que fui.

E era tarde quando apoiei a encomenda sobre a mesa. E desembrulhei o pacote com a pílula e a encarei duramente. Tomando minha decisão. Lutando contra a covarde que sou. Transformando a covarde que fui. Mas era tarde. E eu notei que era tarde quando entrei no banheiro com a cabeça pesada, a testa tensa e os ombros doloridos. Era tarde quando joguei uma água no rosto para refrescar a memória, pra tomar uma decisão antes que fosse tarde. Como foi tarde da última vez.

Mas era tarde. E notei quão tarde era quando me sentei sobre o vaso frio. Aliviando toda a tensão que me consumia. Despejando toda a covardia que ainda restava. Aceitando a pílula esperando na mesa por mim. A higiene marcou o papel com o mais puro vermelho. Como se desfizesse. E desfazia. E desfazia a decisão que eu não tomei. O arrependimento que eu não senti. O vazio que eu não ocupei. As dores que eu não sofri. A pílula que eu não tomei. Mas já era tarde.

 

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